A história do pagode: das rodas de quintal aos estádios lotados

Tem samba que nasce dentro de um estúdio, com produtor, planilha de streaming e assessoria de imprensa. E tem samba que nasce embaixo de uma árvore, com garrafa de cerveja gelada, cavaquinho desafinando no calor e um grupo de amigos que só queria passar o domingo cantando. O pagode, do jeito que a gente conhece hoje — enchendo arena, estádio e festival de verão pelo Brasil inteiro — nasceu do segundo jeito. E entender essa trajetória, dos quintais até os palcos gigantes, é entender também por que esse gênero segue tão vivo, tão presente na vida de quem ama música brasileira.

Os primeiros passos: festas de quintal e calçada

Antes de virar um fenômeno de rádio, streaming e turnê nacional, o pagode era, literalmente, uma festa de fundo de quintal. Na década de 1970, o termo já circulava nos subúrbios cariocas e nas favelas do Rio de Janeiro para descrever encontros informais: gente se reunindo em casas, em quadras de bloco de carnaval e em calçadas de bar no Centro da cidade, com samba, comida farta e cerveja gelada. Não havia luz de palco, nem grade separando artista de público. O “artista” era o vizinho, o parente, o amigo que sabia tocar um cavaquinho ou puxar um partido-alto.

Esse tipo de encontro tinha raízes ainda mais antigas, ligadas às rodas de samba que se espalharam pelo Rio desde o início do século 20, muitas vezes organizadas por mulheres negras — as chamadas tias baianas — que abriam suas casas para rodas, comida e religiosidade afro-brasileira. É dessas rodas que vieram nomes fundamentais da história da música brasileira, e é dessa tradição de reunião, mais do que de show formal, que o pagode bebe até hoje.

Roda de samba no Clube dos Fumagueiros, na Tijuca, Rio de Janeiro
Uma roda de samba tradicional: instrumentos, roda de amigos e a informalidade que deu origem ao pagode como o conhecemos.

O Cacique de Ramos e o batismo de um novo som

Se existe um endereço que pode ser chamado de berço do pagode moderno, é a quadra do bloco Cacique de Ramos, no bairro de Ramos, na zona norte do Rio. O bloco foi fundado em 20 de janeiro de 1961 por três famílias, com o nome inicial de Homens das Cavernas, rapidamente trocado para Cacique de Ramos. Só no início dos anos 1970 o bloco passou a promover os encontros musicais que o tornariam famoso: embaixo de uma tamarineira na quadra, um grupo de sambistas se reunia para tocar, valendo-se de instrumentos improvisados e de uma vontade enorme de fazer samba de um jeito novo, mais solto, mais brincalhão.

O pagode como manifestação cultural só ganhou visibilidade fora daquele círculo em 1978, quando os cantores Tim Maia e Beth Carvalho foram conhecer a quadra do Cacique de Ramos. Beth se encantou com o que ouviu e passou a gravar composições daqueles sambistas, ajudando a projetar nomes que se tornariam gigantes, como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Almir Guineto e o grupo Fundo de Quintal. A boa recepção do público às gravações feitas por Beth Carvalho abriu as portas para que, já no início dos anos 1980, gravadoras e emissoras de rádio e televisão passassem a investir nesses artistas — e o pagode, que até então era festa de quintal, virou também produto fonográfico.

Fundo de Quintal e a reinvenção sonora do samba

Uma das grandes marcas do pagode que nasceu no Cacique de Ramos foi a reinvenção dos instrumentos usados numa roda de samba tradicional. O grupo Fundo de Quintal, formado por sambistas como Ubirany, Bira Presidente, Sereno, Almir Guineto e Jorginho do Império, entre outros, criou soluções que se tornariam símbolos definitivos do pagode. Como as cordas do cavaquinho quebravam com facilidade nas rodas mais animadas, Almir Guineto passou a usar um banjo afinado como cavaquinho, som que se popularizou rapidamente. Ubirany, por sua vez, modificou um repique de bateria de escola de samba, tirando um dos lados de pele e ajustando o timbre até criar o chamado repique de mão. E Sereno é apontado como o criador do tantã, o tambor afunilado que se tornaria um dos sons mais reconhecíveis do pagode.

Essas inovações não foram apenas técnicas: elas mudaram a textura do samba, deram um balanço novo, mais aconchegante e mais fácil de tocar em qualquer roda, sem depender de uma bateria completa de escola de samba. Foi esse som, mistura de tradição com invenção caseira, que a indústria fonográfica batizou de pagode — e que rapidamente conquistou o Brasil inteiro.

Cavaquinhos expostos em museu de instrumentos musicais
O cavaquinho segue sendo a espinha dorsal harmônica de qualquer roda de pagode, do quintal ao show de arena.

Da rádio ao topo das paradas: os anos 1980 e 1990

Com a popularização das gravações de Beth Carvalho e do Fundo de Quintal, o pagode ganhou espaço definitivo no rádio e na televisão ao longo dos anos 1980. Zeca Pagodinho se consolidou como um dos maiores intérpretes e compositores da nova geração, e o gênero passou a disputar espaço com outros estilos populares da época. Nos anos 1990, o pagode viveu uma segunda onda de popularização, dessa vez vinda de fora do Rio de Janeiro: grupos paulistas passaram a produzir um pagode mais romântico, com influência de boy bands e coreografias, gerando o que ficou conhecido como pagode romântico ou pagode noventista, tocado por grupos como Só Pra Contrariar, Katinguelê, Exaltasamba e Raça Negra. Essa vertente, mais melódica e voltada para o público jovem, ampliou ainda mais o alcance do pagode, levando o gênero para rádios de todo o país e para um público que talvez nunca tivesse pisado numa quadra de bloco carnavalesco.

Esse período também gerou debates dentro da própria comunidade do samba sobre o que era “pagode de raiz” e o que era uma vertente mais comercial. Mas o fato é que, seja qual for a vertente, o pagode consolidou-se como um dos gêneros mais populares e mais ouvidos do Brasil, criando um público fiel que atravessa gerações.

A onda paulista: pagode romântico e o boom dos anos 1990

Enquanto o pagode carioca crescia a partir do Cacique de Ramos e do Fundo de Quintal, um movimento paralelo ganhava força em São Paulo ao longo dos anos 1990. Grupos formados nos subúrbios paulistanos passaram a adaptar coreografias e uma estética vocal inspirada em boy bands norte-americanas sobre uma base rítmica próxima do pagode, criando um som mais melódico e romântico, bem distante da pegada mais tradicional de compositores como Bezerra da Silva e Zeca Pagodinho. Grupos como Só Pra Contrariar, Katinguelê, Exaltasamba e Raça Negra se tornaram os grandes nomes dessa vertente, conhecida como pagode romântico ou pagode noventista, levando o gênero ao topo das rádios brasileiras e a um público que, até então, talvez nunca tivesse frequentado uma quadra de bloco carnavalesco.

Esse movimento ampliou enormemente o alcance do pagode, levando-o para além do eixo Rio-São Paulo e consolidando-o como um dos gêneros mais populares do país inteiro. Para muita gente que cresceu ouvindo rádio nos anos 1990, foi essa vertente romântica — e não necessariamente o pagode mais tradicional do Cacique de Ramos — que serviu de porta de entrada para o gênero.

O pagode do século 21: das quadras aos estádios

Se nos anos 1970 o pagode cabia embaixo de uma árvore, hoje ele enche arenas e estádios pelo Brasil inteiro. Grupos como Sorriso Maroto, Turma do Pagode, Ferrugem, Péricles, Thiaguinho e Dilsinho, entre tantos outros, levam multidões a shows que reúnem gerações diferentes de fãs — do avô que ouvia Zeca Pagodinho no rádio ao adolescente que descobriu o pagode no streaming. Turnês inteiras são organizadas em torno do gênero, passando por dezenas de cidades ao longo do ano, muitas vezes em formato de “pagode de estádio”, em que vários grupos se apresentam na mesma noite para um público de dezenas de milhares de pessoas.

Esse sucesso não apagou, porém, a essência mais íntima do gênero. Pelo contrário: ao mesmo tempo em que o pagode enche estádios, ele continua vivo nas rodas de bar, nos points de bairro, nas rodas de samba que reúnem poucas dezenas de pessoas em torno de um cavaquinho e um pandeiro. É essa dupla vida — grande espetáculo de um lado, encontro íntimo de outro — que faz do pagode um dos fenômenos culturais mais interessantes da música popular brasileira.

Desfile da Estação Primeira de Mangueira no Carnaval de 2025, Rio de Janeiro
O legado das escolas de samba e dos blocos cariocas segue vivo nos grandes espetáculos de samba e pagode da atualidade.

Por que essa história importa para quem ama pagode hoje

Conhecer a trajetória do pagode — dos quintais de Ramos às arenas lotadas — ajuda a entender por que esse gênero carrega um carinho tão particular entre os brasileiros. Ele nasceu da informalidade, da amizade, da vontade de reunir gente em torno de um samba bem tocado. Cresceu através de nomes que se tornaram lendas, como Beth Carvalho, Zeca Pagodinho e o Fundo de Quintal, e se reinventou sem nunca perder o vínculo com aquilo que o tornou especial desde o início: a ideia de que samba bom é samba compartilhado.

Hoje, quando um grupo como Sorriso Maroto ou Turma do Pagode enche um estádio, existe ali um fio invisível que liga aquele momento à quadra do Cacique de Ramos, aos instrumentos inventados por Ubirany e Sereno, e às tias baianas que abriram suas casas para as primeiras rodas de samba do Rio de Janeiro. É essa continuidade — entre o quintal e o estádio, entre o improviso e o grande espetáculo — que faz do pagode um patrimônio cultural que segue se reinventando, geração após geração, sem nunca perder a raiz.

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