Todo gênero musical tem uma origem que parece, à primeira vista, quase acidental. Com o pagode não foi diferente. O som que hoje enche estádios e domina playlists de streaming nasceu de um jeito bem mais simples: um grupo de amigos reunidos numa quadra de bloco de carnaval no subúrbio do Rio de Janeiro, tocando samba embaixo de uma árvore, sem nenhuma pretensão de criar um novo gênero musical. É essa história — de como o pagode nasceu, literalmente, no quintal de um bloco carnavalesco — que vale a pena contar em detalhes.
Uma tradição de rodas que já vinha de décadas antes
Antes de existir o Cacique de Ramos, o Rio de Janeiro já tinha uma longa tradição de rodas de samba, remontando ao início do século 20, quando migrantes baianos trouxeram consigo tradições musicais e religiosas afro-brasileiras que se misturaram ao cotidiano urbano carioca. As chamadas tias baianas costumavam abrir suas casas para encontros de samba, muitas vezes ligados também a práticas religiosas de matriz africana. Foi nesse contexto mais amplo que o samba carioca nasceu e se desenvolveu ao longo de décadas, muito antes de o termo “pagode” ganhar o significado que tem hoje.
Ramos, zona norte do Rio: o bairro que viraria berço musical
O bairro de Ramos, na zona norte do Rio de Janeiro, não é normalmente lembrado como point turístico ou point musical da cidade. Mas foi ali, mais precisamente na quadra do bloco carnavalesco Cacique de Ramos, que nasceu boa parte do que hoje chamamos de pagode. O bloco foi fundado em 20 de janeiro de 1961, por três famílias da região, e recebeu inicialmente o nome de Homens das Cavernas, rapidamente substituído por Cacique de Ramos — nome que carregaria até hoje.
Nos primeiros anos, o Cacique de Ramos funcionava como um bloco de carnaval de rua tradicional, com desfiles e festas ligadas ao calendário carnavalesco, reunindo moradores do bairro e de regiões vizinhas em torno da folia de rua típica do carnaval carioca daquela época. Foi só no início da década de 1970 que o bloco começou a promover encontros musicais informais em sua quadra — rodas de samba que reuniam moradores da região embaixo de uma tamarineira, num clima de puro improviso e camaradagem.

A visita que mudou tudo: Beth Carvalho e Tim Maia no Cacique de Ramos
Por quase uma década, os encontros musicais na quadra do Cacique de Ramos permaneceram praticamente restritos ao próprio bairro, conhecidos apenas por quem morava ali perto ou por sambistas de rodas vizinhas. Isso começou a mudar em 1978, quando os cantores Tim Maia e Beth Carvalho visitaram a quadra para conhecer de perto aquele samba que já era comentado entre músicos cariocas.
Beth Carvalho se encantou com o que ouviu e passou a gravar composições daqueles sambistas locais, ajudando a projetar nomes que se tornariam fundamentais na história da música popular brasileira: Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Almir Guineto e o grupo Fundo de Quintal, entre outros. A boa recepção do público a essas gravações abriu caminho para que, já no início da década de 1980, gravadoras, rádios e canais de televisão passassem a investir de forma mais consistente nesses artistas — e foi nesse momento que a indústria fonográfica batizou aquele som de “pagode”.
Fundo de Quintal: os instrumentos que definiram um som
Uma parte essencial dessa história está na criatividade instrumental do grupo Fundo de Quintal, formado por sambistas ligados ao Cacique de Ramos, entre eles os irmãos Ubirany e Bira Presidente, além de Sereno, Almir Guineto e Jorginho do Império. Como as cordas do cavaquinho quebravam com facilidade durante rodas mais longas e animadas, Almir Guineto passou a substituir o instrumento por um banjo afinado do mesmo jeito, som que se popularizou rapidamente entre os sambistas da região.
Ubirany, por sua vez, é creditado com a criação do repique de mão: ele modificou um repique de bateria de escola de samba, retirando uma das peles e ajustando o timbre até conseguir um som que pudesse ser tocado apenas com as mãos, sem baqueta, permitindo variações rítmicas rápidas e versáteis. Já o tantã — tambor afunilado que se tornaria um dos sons mais reconhecíveis do pagode — é atribuído a Sereno, outro fundador do Cacique de Ramos. Essas invenções não surgiram de um plano deliberado de criar um novo gênero, mas da necessidade prática de tocar samba em rodas menores, sem a estrutura completa de uma bateria de escola. É justamente essa origem prática, quase artesanal, que torna a história do pagode tão particular dentro da música popular brasileira: um gênero inteiro nascido da engenhosidade de sambistas comuns tentando resolver um problema simples do dia a dia — como fazer o samba soar bem numa roda pequena, sem os recursos de uma escola de samba completa.

Beth Carvalho: a madrinha do pagode
Não dá para contar a história do nascimento do pagode sem destacar o papel de Beth Carvalho. Já consolidada como uma das grandes intérpretes do samba na década de 1970, ela poderia ter seguido apenas gravando compositores já estabelecidos. Em vez disso, escolheu abrir espaço em seus discos para sambistas desconhecidos do grande público, gravando composições vindas diretamente da quadra do Cacique de Ramos. Essa escolha, generosa e arriscada do ponto de vista comercial, foi decisiva para que nomes como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão e Almir Guineto deixassem de ser conhecidos apenas dentro do próprio bairro e passassem a ocupar rádios e programas de televisão de todo o Brasil.
Por esse papel de ponte entre a roda informal de Ramos e o grande público, Beth Carvalho ficou conhecida ao longo dos anos como a “madrinha do pagode” — um reconhecimento simbólico de como sua curadoria musical ajudou a transformar um som local em um dos gêneros mais populares da música brasileira.
De bloco de bairro a fenômeno nacional
O sucesso das gravações vindas do Cacique de Ramos, somado à força de intérpretes como Zeca Pagodinho e à popularidade crescente do Fundo de Quintal, transformou rapidamente aquele som local em fenômeno nacional ao longo da década de 1980. O que começou como uma roda informal de amigos passou a ocupar as paradas de rádio, os programas de TV e, mais tarde, os grandes selos fonográficos do país. Gravadoras que até então tinham pouco interesse em investir em sambistas de subúrbio passaram a disputar contratos com artistas revelados nas rodas do Cacique de Ramos, um movimento que se acelerou ao longo dos anos 1980 conforme os discos ganhavam espaço cada vez maior no rádio popular brasileiro.
É importante notar que esse processo não apagou o caráter comunitário e informal que deu origem ao pagode. Mesmo depois de se tornar um sucesso comercial, o gênero manteve — e mantém até hoje — uma ligação forte com a ideia de roda, de encontro, de música feita para ser compartilhada entre amigos, mais do que apresentada num palco distante do público. Ainda hoje é comum ouvir sambistas mais experientes dizerem que, apesar de todo o sucesso comercial alcançado nas décadas seguintes, o verdadeiro teste de uma boa composição de pagode continua sendo simples: ela precisa funcionar tão bem numa roda informal de quintal quanto num show de arena lotada.

Por que essa origem importa até hoje
Voltar à história de como o pagode nasceu no Cacique de Ramos ajuda a entender uma característica que segue definindo o gênero até os dias de hoje: sua origem coletiva e comunitária. Diferentemente de outros movimentos musicais que nasceram de um único artista ou de uma estratégia comercial, o pagode nasceu de um grupo de amigos tocando samba juntos, sem outra ambição além de se divertir e homenagear a tradição musical que aprenderam com gerações anteriores.
É essa origem que explica, em boa parte, por que o pagode continua tão ligado à ideia de reunião — seja numa roda de bar, numa quadra de bloco carnavalesco ou, hoje em dia, num grande show de arena reunindo milhares de pessoas. O fio que liga a quadra do Cacique de Ramos, no início dos anos 1970, aos maiores shows de pagode da atualidade é, no fundo, sempre o mesmo: gente se encontrando para fazer e ouvir samba junto, exatamente como começou tudo, décadas atrás, embaixo de uma tamarineira no bairro de Ramos.
Vale a pena, inclusive, fazer esse exercício da próxima vez que você curtir um show de pagode ou participar de uma roda de samba: lembrar que aquele instrumento tocando ao vivo — seja o tantã, o banjo ou o repique de mão — foi, um dia, uma solução improvisada, criada por sambistas comuns tentando fazer o samba soar melhor numa roda de bairro. É uma história que mostra como grandes movimentos culturais, muitas vezes, não nascem de planejamento nem de estratégia de mercado, mas simplesmente da vontade genuína de um grupo de pessoas de fazer música boa junto, sem pressa e sem plateia — até o dia em que o mundo inteiro decide prestar atenção.