Grandes nomes do samba que todo fã de pagode deveria conhecer

Todo fã de pagode e samba, cedo ou tarde, esbarra em alguns nomes que aparecem repetidamente em conversas de roda, em citações de artistas atuais, em documentários sobre música brasileira e em homenagens de carnaval. São compositores e intérpretes que, décadas atrás, ajudaram a construir o alicerce sobre o qual todo o samba e o pagode contemporâneos foram erguidos. Conhecer a trajetória desses nomes não é apenas curiosidade histórica: é entender de onde vieram as referências que artistas de hoje carregam, mesmo sem sempre dizer isso explicitamente.

Por que separar “grandes nomes” merece cuidado

Falar em “grandes nomes históricos do samba” é sempre um exercício delicado: a história desse gênero é feita por milhares de compositores, instrumentistas e intérpretes anônimos, muitos deles nunca gravados formalmente, que ao longo de gerações mantiveram viva a tradição das rodas de samba em bairros populares do Rio de Janeiro e de outras regiões do país. Os nomes reunidos a seguir são apenas alguns dos mais documentados e reconhecidos oficialmente pela indústria fonográfica e pela crítica musical — o que não diminui, de forma alguma, a importância de tantos outros sambistas que ajudaram a construir essa tradição sem nunca alcançar o mesmo grau de reconhecimento nacional.

Noel Rosa: o poeta da Vila

Poucos compositores da história da música brasileira tiveram uma vida tão curta e uma obra tão duradoura quanto Noel Rosa. Morador da Vila Isabel, no Rio de Janeiro, Noel começou a se interessar por música ainda criança: aos 13 anos, já tocava bandolim de ouvido, sem estudo formal, e aos 15 anos fazia serenatas com o irmão, usando o violão que aprendera a tocar com o pai e outros parentes. Ao longo de sua trajetória, compôs mais de 200 canções, muitas delas gravadas por intérpretes de gerações completamente diferentes, de Francisco Alves a Chico Buarque e Paulinho da Viola.

O talento de Noel Rosa estava especialmente na letra: ele tinha uma habilidade rara de misturar linguagem coloquial, gírias cariocas e crítica social sutil em versos que soavam, ao mesmo tempo, populares e sofisticados. Sua obra ajudou a consolidar o samba urbano carioca como forma de expressão poética legítima, muito além de mero entretenimento, abrindo caminho para gerações de compositores que vieram depois.

Noel Rosa, um dos maiores compositores da história do samba
Noel Rosa: em pouco mais de uma década de carreira, compôs mais de 200 canções que atravessaram gerações.

Cartola: o fundador que virou lenda tardia

Angenor de Oliveira, o Cartola, é um dos nomes mais importantes da história do samba — e também um dos exemplos mais marcantes de reconhecimento tardio na música brasileira. Nascido e criado no Morro da Mangueira, aprendeu violão e cavaquinho ainda menino, com o pai, e na juventude, ao lado do amigo Carlos Cachaça, fundou o Bloco dos Arengueiros, embrião do que em 1928 se tornaria a Estação Primeira de Mangueira, uma das escolas de samba mais tradicionais e vitoriosas do Rio de Janeiro.

Apesar de já ser reconhecido havia décadas como compositor talentoso entre outros sambistas, Cartola só lançou seu primeiro álbum solo em 1974, aos 65 anos de idade. Nos anos 1960, ele e a esposa, Dona Zica, abriram o restaurante Zicartola, que se tornou point de encontro para grandes nomes do samba da época, incluindo Paulinho da Viola e Nelson Cavaquinho. A obra de Cartola, marcada por letras sobre amor, saudade e a vida no morro carioca, segue sendo regravada e estudada até hoje como uma das mais sofisticadas do cancioneiro brasileiro.

Clara Nunes: a voz que popularizou o samba de raiz

Clara Nunes ocupa um lugar único na história do samba: foi uma das primeiras mulheres a alcançar sucesso comercial massivo interpretando samba de raiz, além de ter papel fundamental na valorização das religiões afro-brasileiras dentro da música popular brasileira, especialmente através de canções ligadas à umbanda e ao candomblé. Ao longo de sua carreira, gravou 16 álbuns solo, com hits que atravessaram gerações, como “Você Passa, Eu Acho Graça” (1968), “Ê Baiana” (1971), “Conto de Areia” (1974) e “Morena de Angola” (1980).

A revista Rolling Stone chegou a apontá-la como uma das maiores vozes da música brasileira, reconhecimento raro para uma artista tão diretamente ligada à tradição do samba de raiz. Clara também esteve presente no Zicartola, o restaurante de Cartola e Dona Zica, convivendo com outros grandes nomes do samba carioca da época e ajudando a consolidar pontes entre diferentes gerações de sambistas.

Clara Nunes se apresentando no Zicartola
Clara Nunes no Zicartola, o restaurante de Cartola e Dona Zica que reunia os grandes nomes do samba carioca.

Paulinho da Viola: elegância entre samba, choro e MPB

Paulinho da Viola é um dos poucos sambistas capazes de transitar com naturalidade entre samba, choro e MPB, sempre com composições elegantes e letras poéticas. Ele adotou o nome artístico ainda jovem, por volta dos 23 anos, e rapidamente se aproximou de nomes como Cartola e Candeia, absorvendo a tradição do samba carioca mais tradicional. Em 1964, foi convidado a participar do espetáculo musical “Rosa de Ouro”, cujo sucesso levou à gravação de seu primeiro EP, “Roda de Samba”.

Paulinho também teve papel decisivo na história do carnaval carioca: em 1966, a escola de samba Portela venceu o desfile com um enredo que contou com sua colaboração na composição. Ao longo de décadas de carreira, ele se consolidou como um dos maiores nomes do samba brasileiro, respeitado tanto pela crítica quanto por gerações de músicos que vieram depois, incluindo muitos artistas ligados ao pagode contemporâneo, que costumam citar sua obra como exemplo de como é possível inovar sem nunca abandonar a raiz mais tradicional do samba carioca.

Paulinho da Viola, sambista e compositor
Paulinho da Viola: décadas de carreira transitando entre samba, choro e MPB com elegância e poesia.

Beth Carvalho: a madrinha que abriu as portas do pagode

Nenhuma lista de grandes nomes do samba e do pagode estaria completa sem Beth Carvalho. Consolidada como intérprete de samba já na década de 1970, ela usou seu prestígio para gravar composições de sambistas então desconhecidos que se reuniam na quadra do bloco Cacique de Ramos, no bairro de Ramos, no Rio de Janeiro. Foi assim que nomes como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Almir Guineto e o grupo Fundo de Quintal ganharam projeção nacional, revelados justamente por Beth Carvalho.

Por ter revelado tantos artistas fundamentais e por ter levado ao público em geral os instrumentos criados nas rodas do Cacique de Ramos — como o banjo afinado como cavaquinho, o tantã e o repique de mão —, Beth Carvalho ficou conhecida como a madrinha do pagode, e mais tarde também como madrinha do samba, reconhecimento que carregou até seus últimos anos de vida.

Zeca Pagodinho: a voz que virou sinônimo do gênero

Revelado por Beth Carvalho ainda nos anos 1980, Zeca Pagodinho se tornou, ao longo das décadas seguintes, um dos nomes mais populares e queridos de todo o samba brasileiro. Sua voz rouca e seu jeito descontraído de compor e interpretar ajudaram a consolidar o pagode como um dos gêneros mais executados do país, com canções que atravessaram gerações e seguem tocando em rodas de bar, churrascos e festas de todos os tipos pelo Brasil inteiro. Zeca é, até hoje, um dos elos mais diretos entre o pagode nascido no Cacique de Ramos e o público de massa que o gênero conquistou nas décadas seguintes, sendo constantemente citado por artistas mais jovens do pagode contemporâneo como uma das maiores referências de composição, interpretação e simplicidade na hora de cantar samba.

Por que conhecer essas histórias importa para quem gosta de pagode

É comum que fãs de pagode mais recente conheçam bem os artistas contemporâneos — Zeca Pagodinho, Sorriso Maroto, Ferrugem, Thiaguinho — mas tenham menos familiaridade com os nomes que vieram antes e que, de certa forma, tornaram esses artistas possíveis. Noel Rosa mostrou que o samba podia ser poesia popular sofisticada. Cartola provou que um compositor de morro podia se tornar uma referência nacional, mesmo que o reconhecimento demorasse décadas para chegar. Clara Nunes levou o samba de raiz e a cultura afro-brasileira a um público de massa. Paulinho da Viola demonstrou que era possível transitar entre tradição e modernidade sem perder a elegância.

Cada um desses artistas, à sua maneira, ajudou a construir o terreno cultural sobre o qual o pagode se desenvolveria décadas depois. Conhecer suas histórias é, de certa forma, entender melhor as próprias raízes do gênero que você ouve hoje — e talvez até escutar com outros ouvidos aquele clássico que toca sempre que a roda de samba começa.

Vale destacar que essa lista está longe de esgotar os nomes fundamentais da história do samba brasileiro — ela é apenas um ponto de partida. Compositores e intérpretes como Nelson Cavaquinho, Candeia, Zeca Pagodinho e tantos outros também deixaram marcas profundas na trajetória do gênero, cada um contribuindo à sua maneira para consolidar o samba e, mais tarde, o pagode como uma das expressões culturais mais importantes e mais amadas do Brasil. Para quem quer se aprofundar de verdade na história desse universo musical, a recomendação é simples: comece por esses nomes fundamentais, ouça suas obras com calma e deixe que uma descoberta puxe a outra — é exatamente assim que o samba sempre funcionou, de geração em geração, de roda em roda.

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