“Isso aí não é samba, é pagode.” “Isso aí não é pagode raiz, é pagode romântico.” Quem já frequentou uma roda de samba ou discutiu música brasileira em algum grupo de WhatsApp certamente já ouviu — ou até fez — esse tipo de comentário. A verdade é que, apesar de todos esses termos estarem profundamente conectados, eles descrevem coisas diferentes, com histórias, sonoridades e públicos próprios. Entender essas diferenças não é sobre estabelecer hierarquia de “quem é mais autêntico”, mas sobre enxergar a riqueza de um gênero que se transformou várias vezes ao longo de um século sem nunca deixar de ser, no fundo, samba.
Um mesmo tronco, galhos diferentes
Uma boa forma de visualizar essas três vertentes é imaginar uma árvore genealógica musical. O samba é o tronco, plantado no início do século 20 nas rodas cariocas. Do tronco, ao longo das décadas, nasceram vários galhos: o samba-canção, o samba-enredo, o partido-alto, e, décadas depois, o próprio pagode. Cada um desses galhos manteve uma ligação direta com a raiz, mas desenvolveu características sonoras, temáticas e até sociais próprias, respondendo às necessidades e ao contexto de cada época e de cada grupo de sambistas que o cultivou.
Samba: a raiz de tudo
O samba é o gênero-mãe, a base de onde tudo o mais se desenvolveu. Suas raízes remontam ao encontro de tradições musicais afro-brasileiras, com forte influência da cultura baiana trazida ao Rio de Janeiro por migrantes no início do século 20, especialmente nas rodas promovidas nas casas das chamadas tias baianas. Dessas rodas surgiram os primeiros sambas urbanos gravados, e ao longo das décadas seguintes o gênero se ramificou em dezenas de subestilos: samba-canção, samba-enredo, samba de breque, partido-alto, samba de terreiro, entre outros.
Quando alguém fala em “samba de raiz”, geralmente está se referindo a essa vertente mais tradicional, ligada à roda, ao violão de sete cordas, ao cavaquinho, ao pandeiro e a uma estética mais próxima da que consagrou nomes como Cartola, Noel Rosa, Nelson Cavaquinho e, mais tarde, Paulinho da Viola e Clara Nunes. É um samba pensado para ser tocado em roda, com espaço para improviso, partido-alto e valorização da poesia da letra.

Pagode: quando o samba virou festa de quintal
O pagode, tal como conhecemos hoje, nasceu como uma vertente mais festiva e caseira do próprio samba. Nos anos 1970, o termo já era usado no Rio de Janeiro para descrever encontros informais em quintais, quadras de bloco e calçadas de bar, regados a samba, comida e bebida. Foi dentro desse contexto que a quadra do bloco Cacique de Ramos, no bairro de Ramos, se tornou um point de encontros musicais a partir do início da década de 1970.
A projeção nacional veio em 1978, quando os cantores Tim Maia e Beth Carvalho visitaram a quadra e ficaram encantados com o que ouviram. Beth passou a gravar composições daqueles sambistas, ajudando a projetar nomes como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Almir Guineto e o grupo Fundo de Quintal — banda que reinventou boa parte da instrumentação do samba tradicional, criando o banjo afinado como cavaquinho, o repique de mão e o tantã. Foi esse som, batizado de pagode pela indústria fonográfica no início dos anos 1980, que se tornou um dos gêneros mais populares do Brasil.

Pagode romântico e pagode noventista: a virada paulista
Se o pagode carioca dos anos 1980 tinha uma pegada mais próxima do samba tradicional — apenas com instrumentação renovada —, o que ficou conhecido como pagode romântico ou pagode noventista nasceu de um movimento diferente, concentrado em São Paulo ao longo da década de 1990. Grupos formados nos subúrbios paulistanos passaram a adaptar coreografias, figurinos e uma estética vocal inspirada em grupos vocais norte-americanos, sobre uma base rítmica próxima do pagode, mas com uma sonoridade muito mais melódica, romântica e voltada para o grande público, distante da pegada mais “de raiz” de compositores como Bezerra da Silva ou Zeca Pagodinho.
Grupos como Só Pra Contrariar, Katinguelê, Exaltasamba e Raça Negra se tornaram os grandes nomes dessa vertente, levando o pagode romântico ao topo das rádios brasileiras e conquistando um público muito mais amplo, inclusive fora do eixo Rio-São Paulo. Foi um movimento tão forte que, para muita gente que cresceu nos anos 1990, “pagode” e “pagode romântico” praticamente viraram sinônimos — mesmo que puristas insistissem em separar essa vertente do pagode mais tradicional gestado no Cacique de Ramos.
Como reconhecer cada vertente numa roda ou num show
Na prática, é possível reconhecer de ouvido, com um pouco de atenção, qual dessas vertentes está tocando numa roda ou num show. O samba de raiz costuma soar mais “cru”: poucos instrumentos, muito espaço para o improviso, partido-alto entre os versos e uma condução vocal que privilegia a poesia da letra sobre a melodia. É comum que o cavaquinho toque sozinho por alguns compassos, conduzindo a harmonia antes de a percussão entrar, e que haja momentos de silêncio quase teatral entre uma estrofe e outra.
Já o pagode carioca tradicional, herdeiro direto do Cacique de Ramos e do Fundo de Quintal, costuma ter uma pegada mais dançante, com o tantã marcando um groove constante, o banjo substituindo o cavaquinho em muitos casos, e o repique de mão criando variações rítmicas ágeis por cima da levada. O clima é de festa, mas ainda profundamente ligado à roda como formato de execução — os músicos sentados em círculo, alternando solos e coro.

Já o pagode romântico e noventista costuma ser reconhecível quase imediatamente pela produção: teclados eletrônicos, arranjos de metais mais elaborados, backing vocals ensaiados e uma estética de palco mais próxima de um show pop do que de uma roda tradicional. As letras, quase sempre centradas em relacionamentos amorosos, também costumam ter uma estrutura mais próxima da música romântica de rádio, com refrões grudentos pensados para tocar em qualquer situação, da rádio ao alto-falante de um carro de som.
Onde estão as diferenças na prática
Na prática, dá para notar as diferenças entre essas vertentes em pelo menos três aspectos: instrumentação, tema das letras e contexto de execução. O samba de raiz valoriza a formação mais tradicional — violão de sete cordas, cavaquinho, pandeiro, surdo — e costuma abordar temas como malandragem, cotidiano dos morros e bairros populares, amor e crítica social, sempre com grande valorização da poesia. O pagode carioca dos anos 1980 manteve boa parte dessa base instrumental, mas trocou o surdo tradicional pelo tantã, incorporou o banjo e o repique de mão, e trouxe letras mais descontraídas, muitas vezes sobre festa, amizade e o próprio ato de “fazer um pagode”.
Já o pagode romântico e noventista costuma usar uma instrumentação mais próxima do pop e da música romântica de rádio, com teclados, arranjos de metais e uma produção vocal mais elaborada, além de letras quase sempre centradas em relacionamentos amorosos — o típico “samba de amor e dor” que embalou tantas gerações em festas de formatura e casamentos. Vale lembrar, porém, que essas fronteiras nunca foram rígidas: muitos artistas transitam entre as três vertentes, e é comum encontrar shows que misturam samba de raiz, pagode tradicional e pagode romântico numa mesma noite.
Uma discussão sem vencedor — e isso é bom
Segundo integrantes históricos do Fundo de Quintal, a diferença mais importante talvez nem esteja no estilo musical, mas no contexto: pagode, na origem, é o encontro onde se toca samba — é a reunião, e não necessariamente um gênero musical à parte. Já quem chama o pagode romântico de “samba” está, tecnicamente, descrevendo algo que muitos especialistas classificam como uma vertente própria, mais próxima da música romântica popular do que do samba tradicional.
No fim das contas, essa discussão — samba de raiz versus pagode versus pagode romântico — é menos sobre determinar qual vertente é “melhor” ou “mais autêntica” e mais sobre reconhecer a riqueza de um gênero que soube se reinventar sem nunca cortar totalmente o vínculo com a roda, com o cavaquinho e com a alegria de reunir gente em torno da música. Seja numa roda de samba de raiz na Lapa, num pagode tradicional numa quadra de bloco ou numa festa embalada por um clássico do pagode romântico dos anos 1990, o que está em jogo, no fundo, é a mesma coisa: gente se encontrando para cantar junto.
Vale lembrar também que essas três vertentes seguem coexistindo, lado a lado, na cena musical brasileira atual. É comum encontrar casas de show que dedicam uma noite ao samba de raiz e outra ao pagode romântico, festivais que reúnem artistas das diferentes gerações num mesmo line-up, e até playlists de streaming que misturam Cartola, Fundo de Quintal e Exaltasamba sem qualquer contradição. Para quem está começando a se aprofundar no universo do samba e do pagode, a dica é simples: em vez de escolher um “lado” só, vale a pena explorar as três vertentes e descobrir, na prática, o que cada uma tem de especial — a poesia crua do samba de raiz, o balanço inventivo do pagode tradicional e a melodia inesquecível do pagode romântico.